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sábado, 22 de abril de 2017

517 ANOS DE LUTA DOS POVOS ORIGINÁRIOS!

Imagem: Marcha Indígena que saiu da Aldeia da Jaqueira rumo à Aldeia Novos Guerreiros, em outubro de 2016. Fechamento da pista da BR-367 - sul da Bahia. 
Edição a partir de foto/Arquivo: Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania.

NOTA DE REPÚDIO AO GENOCÍDIO E ETNOCÍDIO
DOS POVOS ORIGINÁRIOS – 517 ANOS DE LUTA!
            Neste 22 de abril de 2017, o Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania vem a público manifestar o mais veemente repúdio à  situação de etnocídio e genocídio instaurada contra os Povos Originários. Trata-se de matéria de longa duração no Brasil, iniciada há 517 anos com a guerra de conquista engendrada pelos invasores e colonizadores portugueses. Há 450 anos, foi massacrada a Confederação dos Tamoios (1554-1567) - ou dos Tamuya, que significa mais antigos, sábios, anciãos – considerada a primeira resistência organizada dos Povos Indígenas no Brasil, a qual impressiona pelo nível  de combatividade e articulação. Ela aconteceu nos territórios onde hoje estão situados os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Foi uma luta de resistência levada a cabo pelos Povos Tupinambá, Guaianá, Aimoré, Goitacá, Tupiniquim, Tapuia e Carijó contra a invasão colonialista. Desde então, os Povos Indígenas continuam resistindo e lutando contra a usurpação de seus territórios, a destruição das florestas e dos mananciais e a prática sistêmica de extermínio, cada vez mais consolidadas como políticas de Estado.
        A trajetória de mais de 500 anos de lutas dos Povos Indígenas, portanto, abole na prática o tal “dia do índio” (19 de abril), instituído por Getúlio Vargas como parte do calendário cívico-folclórico da ditadura do Estado Novo, em 1943. Esta data foi estabelecida pelo Congresso Indigenista Interamericano (cidade do México, 1940) como “Dia do Aborígene Americano” – trata-se de um congresso de brancos com robusta presença de intelectuais acadêmicos, autoridades e emblemática ausência de representantes das nações indígenas. No seu discurso de abertura, o presidente do México Lázaro Cardenas sentenciou que seu objetivo ali era mexicanizar os indígenas, nunca indianizar o México. Na mesma linha, no Brasil estava em andamento a getulista marcha para o oeste que adotou como herói nacional o bandeirante – leia-se preador, escravizador e matador de índios. A marca da política indigenista da ditadura Vargas é a assimilação agressiva dos Povos Originários, ou seja, o imperativo de amansá-los, domesticá-los e submetê-los ao trabalho forçado a serviço da civilização e da criação de uma identidade nacional racista e predadora: índio bom é índio integrado ou índio morto.
        Esta marca se mostrou indelével na política indigenista dos governos constituídos ao longo dos séculos XX e XXI. Foi levada ao paroxismo durante a ditadura militar (1964-1965), que transformou a questão indígena em matéria de segurança nacional. A ocupação da Amazônia passou a ser prioridade das Forças Armadas. A militarização desta região foi levada às máximas consequências a partir da Operação Amazonas concebida pelo ditador Castelo Branco, em dezembro de 1966. Os indígenas, considerados estorvos, passam a integrar a lista de inimigos internos a serem eliminados, uma vez que constituem obstáculo à implementação do binômio desenvolvimento e segurança. A ditadura praticou guerra total contra eles, a qual se estendeu por todo o território nacional: política de escravização e extermínio, deslocamentos forçados, epidemias devastadoras toleradas e até reforçadas pelo sistema, prisões, segregação, torturas, desparecimentos. Tudo isto em nome do projeto de modernização conservadora do capitalismo então em andamento: favorecimento ilimitado ao latifúndio, às mineradoras e às empreiteiras, ampliação da chamada fronteira agrícola, megaconstruções de hidrelétricas e rodovias – como a transamazônica e a BR-174, que liga Manaus/AM a Boa Vista/RR, até hoje objeto de litígio. Assim, várias etnias foram alvo de genocídio/etnocídio praticado pela ditadura, com destaque na região amazônica para os Yanomami, Waimiri-Atroari e Cinta Larga.
        Nesta conjuntura foi fundada a FUNAI (1967), cujo primeiro presidente, Queirós Campos, teve a infame ideia de criar a Guarda Rural Indígena (GRIN), a qual deveria  formar numeroso pelotão de índios com a função precípua de reprimir índios e defender brancos civilizados. Seu chefe era o capitão da Polícia Militar Manuel dos Santos Pinheiro. O treinamento – instrução policial e militar, o que incluía aulas de tortura - ficou a cargo do Batalhão Escola da Polícia Militar de Belo Horizonte. Foi criado também o Reformatório Krenak – verdadeiro campo de concentração para os indígenas – em Resplendor, Minas Gerais em reação à rebelião dos Maxacali, em 1966.  Outro campo de concentração para indígenas foi a Fazenda Guarani, instalada em uma propriedade da Polícia Militar de Minas Gerais no município de Carmésia. Tais campos de concentração recebiam indígenas de todo o país, os quais foram ali presos, torturados e segregados – muitos morreram e desapareceram. Há um cálculo conservador que estabelece que quase 9 mil indígenas foram vítimas dos massacres perpetrados das mais diversas formas pela ditadura militar. Seus nomes, no entanto, não compõem nenhuma lista de mortos e desaparecidos. No relatório final da Comissão Nacional da Verdade (dezembro de 2014), pela primeira vez um documento oficial do Estado aborda a questão, mas de maneira lacunar, precária e, sobretudo ineficaz: não há perspectiva de ressarcimento ou anistia para os Povos Indígenas trucidados pela ditadura – não há perspectiva institucional de estabelecimento de memória, verdade e justiça para eles.
         O quadro atual continua devastador. O governo golpista Temer/Meirelles (PMDB/PSDB/DEM/PSD/PP/PR/PTB/PPS/PV/PRB/PSB) tornou mais graves os conflitos pela terra. Seu ministro da agricultura é ninguém menos que Blairo Maggi (PP) – dito rei da soja – ícone do latifúndio/agronegócio. As bancadas Boi/Bala/Bíblia/Jaula controlam de forma absoluta este governo espúrio, destruindo conquistas sociais e garantindo a submissão a todos e quaisquer desígnios do latifúndio, das empreiteiras, do mercado financeiro, da especulação imobiliária. Os indígenas continuam a longa e árdua batalha por suas vidas, seus territórios, suas culturas.
        As ofensivas de retirada de direitos foram responsáveis pelo aprofundamento do clima de mobilização permanente dos mais diversos segmentos dos movimentos sociais. Nesta mesma perspectiva, forte mobilização dos Povos Pataxó, Tupinambá de Olivença, Tupinambá de Belmonte e Tumbalalá foi capaz de barrar a indicação pelo Partido Social Cristão (PSC) do general Sebastião Roberto Peternelli Júnior, entusiasta do golpe militar de 1964, ao cargo de presidente da FUNAI. Continua a ofensiva do governo Temer  também na promoção de desmonte de estruturas públicas voltadas para as questões indígenas: no dia 24/03/2017, um decreto extinguiu 87 cargos  da FUNAI, quase 12% do total. O deputado Osmar Serraglio (PMDB) – proeminente representante da bancada do Boi no congresso nacional - e o ministro do planejamento, orçamento e gestão, Dyogo de Oliveira, atuaram diretamente nestes cortes. Foram também extintos 51 cargos de Coordenação Técnica Local. Esses cortes se referem principalmente a funções relativas à avaliação de projetos invasivos de construção nas terras indígenas. Osmar Serraglio é o relator da PEC 215/2000 cujo objetivo é garantir ao legislativo – dominado, repetimos, pelas bancadas Boi/Bala/Bíblia/Jaula - a prerrogativa de decidir sobre a demarcação de terras indígenas e quilombolas. Existem hoje 189 iniciativas no congresso contra os direitos dos Povos Indígenas.
        Se o governo de Dilma Rousseff (PT/PCdoB/PMDB) foi o que menos demarcou terras indígenas desde 1988, o novo governo é capaz de retroceder mais ainda. Em novembro de 2016, a Casa Civil da Presidência da República devolveu para a FUNAI 13 processos de demarcação de terras indígenas. Neste único processo mais de 1,5 milhão de hectares pertencentes a 17 etnias diferentes foram retirados de seus legítimos donos. Além disso, o Ministério da Justiça devolveu para a FUNAI outros seis processos em fase de identificação. No que diz respeito ao extremo sul da Bahia, as comunidades Pataxó enfrentam mais uma ameaça ao seu território original pela Sentença Provisória de Reintegração de Posse das comunidades Nova Coroa, Mirapé I, Mirapé II, Novos Guerreiros e Txihi Kamauyrá. Mais uma vez uma das etnias com o mais longo contato com o homem branco sofre terrível ameaça. No Mato Grosso do Sul – estado onde ocorreram 50% dos assassinatos de indígenas nos últimos anos – a luta histórica dos Terena e Guarani-kaiowá denuncia para o Brasil e para o mundo o massacre sistêmico a que são submetidos.  Dois dos maiores inimigos dos povos originários lá atuam impunemente: o deputado estadual José Teixeira (DEM) e o fazendeiro assassino Jacinto Honório.
        Diversas declarações de cunho fascista, misógino, racista e lgbtfóbico inundam o cenário atual. O ministro da justiça Osmar Serraglio (PMDB) – ao qual é submetida a FUNAI - afirmou em declaração pública que “terra não enche barriga de ninguém” ao criticar e desqualificar abertamente os índígenas e defender os projetos dos latifundiários de usurpação de terras já demarcadas ou a serem demarcadas. Tal fala demonstra o caráter extremamente reacionário deste governo e o aprofundamento do processo de fascistização do Estado. Na mesma toada, o governador de Roraima, Paulo Quartiero (DEM), declarou que o ex-secretário do índio, Dilson Ingarikó, deveria ser fuzilado por defender a demarcação das terras indígenas. Imbuído da Doutrina de Segurança Nacional da ditadura militar, o governador demitiu o secretário alegando “traição” ao Estado.
        Os Povos Originários resistem tenazmente a este processo de genocídio e etnocídio institucionalizado e ao esbulho de suas terras. A comunidade Pataxó da Aldeia Aratikum/BA, expulsa de suas terras em outubro de 2016, já voltou a ocupar seu território, ainda não demarcado. Apesar da ameaça contínua e da possibilidade de expulsão de suas terras a qualquer momento, a comunidade continua resistindo. As aldeias de Porto Seguro e Cabrália se mantêm em contínua posição de mobilização, combatendo a sentença provisória de reintegração de posse que ainda não foi cumprida por causa da pressão.
        A batalha é árdua, contínua, diária - a permanente mobilização dos Povos Indígenas tem combatido os diversos ataques. Há também processo de destruição igualmente criminoso dos seus saberes, línguas e conhecimentos - tão ameaçados de extinção quanto as próprias etnias sobreviventes. A luta em defesa dos territórios indígenas e a luta contra o genocídio dos Povos Indígenas são princípios da luta pelos direitos humanos.
Pelo fim do genocídio dos Povos Indígenas!
Pela demarcação de todas as terras indígenas!
Abaixo o latifúndio/agronegócio!
Pelo fim de todo aparato repressivo!
Abaixo o terrorismo de Estado e do capital!
Pelo direito à História, à Memória, à Verdade e à Justiça!
Pela defesa dos direitos humanos dos Povos Indígenas!
Belo Horizonte, 22 de abril de 2017
Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania
Leia também:
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CONTRA O MASSACRE DO POVO INDÍGENA DO MATO GROSO DO SUL (BRASIL): 
NOTÍCIA SOBRE O ATO DE REPÚDIO AOS ATAQUES CONTRA O POVO GUARANI KAIOWÁ:

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