"Estamos aqui pela Humanidade!" Comuna de Paris, 1871 - "Sejamos realistas, exijamos o impossível." Maio de 68

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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

COMPANHEIRA AMELINHA TELES: PRESENTE, HOJE E SEMPRE! (06/10/1944 – 15/09/2026)

Com a mais profunda consternação recebemos, no dia 15/09/2026, a notícia do falecimento da companheira Maria Amélia de Almeida Teles, a nossa querida Amelinha. Ela sempre será uma das maiores referências de combatividade, radicalidade e coerência na luta contra a ditadura (1964 – 1985), na militância feminista histórica e na luta permanente por memória, verdade e justiça.

Nascida em Contagem/MG, começou sua trajetória antes da ditadura. Ainda adolescente participava do movimento operário, ao lado do pai (Joffre de Almeida), da mãe (Lúcia Schmidt de Almeida) e da irmã (Crimeia Schmidt de Almeida). Amelinha, o pai e a irmã foram presos logo depois do golpe militar de 1964. As duas jovens foram soltas em alguns dias e continuaram sua jornada.

Durante a ditadura, Amelinha lutou na clandestinidade juntamente com seu companheiro de toda a vida, o saudoso César Teles (1944 - 2015). Participavam do PCdoB, da imprensa clandestina e da coordenação da logística da Guerrilha do Araguaia (1967 - 1974) quando foram sequestrados pelo Doi-Codi/SP, em 28 de dezembro de 1972. Junto com eles, foram presos os dois filhos, Janaina e Edson, então respectivamente com cinco e quatro anos de idade. Também Crimeia foi presa, grávida de 8 meses. Ela é uma das únicas sobreviventes da Guerrilha do Araguaia. Teve seu filho na prisão nas piores condições que se possa imaginar.

Toda a família – inclusive as crianças - foi barbaramente torturada no Doi-Codi pelo seu comandante, o carniceiro Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra. Amelinha foi testemunha ocular da morte sob tortura do camarada Carlos Nicolau Danielli, pelas mãos do mesmíssimo Cel. Brilhante Ustra, juntamente com os torturadores Dirceu Gravina e Aparecido Laertes Calandra.

Depois de sair do Doi-Codi, a companheira passou ainda pelo horror do Dops/SP, onde ficou totalmente isolada na Cela 3 por três longos meses. Esta terrível experiência deu origem ao belíssimo livro de Amelinha, Contos da Cela Três Memórias de uma presa política na ditadura, publicado em 2025. Aqui em Belo Horizonte, ele foi lançado no Memorial dos Direitos Humanos Ocupado, antiga sede do Dops/MG e Doi-Codi.

A nossa guerrilheira, advogada, jornalista, feminista histórica e combatente de todas as lutas, é também escritora profícua. O seu enorme legado contém obras clássicas sobre o feminismo, a resistência contra a ditadura, a imprensa feminista e a luta transgeracional dos familiares dos mortos e desaparecidos políticos.

Amelinha é uma das fundadoras da Comissão dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. É uma das autoras do Dossiê ditadura Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil 1964 – 1985, publicado em 2009. Teve papel crucial na luta pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita durante a ditadura e nos seus desdobramentos contra o terrorismo de Estado e o processo de fascistização em escalada no Brasil de hoje.

É também uma das fundadoras da União de Mulheres de São Paulo (1981), entidade referência para a luta feminista sempre na perspectiva da interseccionalidade gênero, raça, classe e sexualidade. Seu projeto Promotoras Legais Populares funciona continuamente desde 1994. Amelinha é a responsável pela inclusão da questão de gênero como um eixo, não como tema acessório, na Comissão Nacional da Verdade (2012 - 2014) e da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva.

É também uma das responsáveis pela abertura da Vala de Perus, em 4 de setembro de 1990, no Cemitério D. Bosco no bairro de Perus, em São Paulo. Trata-se de passo fundamental para o avanço da localização dos desaparecidos da ditadura.

Devemos ainda à companheira Amelinha e à família Teles o único caso de condenação com trânsito em julgado de ação declaratória em que Carlos Alberto Brilhante Ustra é declarado torturador. Esta luta começou em 2005 e só teve o seu desfecho em 2015.

Mesmo o expressivo epíteto brechtiano imprescindível talvez não chegue a abarcar a grandeza desta gigante que acaba de nos deixar. Ela é também irrepetível. Nós, do Instituto Helena Greco,  tivemos o privilégio, a alegria e a honra de poder compartilhar companheirismo, amizade, vitórias, derrotas, lutas e lutos com ela. Não podemos deixar de mencionar a enorme alegria de viver que ela emanava por todos os poros. Alegria de viver de quem tem consciência de estar do lado certo da história e de ter construído o tempo todo a barricada contra todas as formas de opressão.

A Amelinha estará sempre presente nas nossas lutas e nos nossos corações. Prestamos tributo aqui também aos seus familiares e companheiras/os. Um forte abraço solidário a todes, com a certeza de que a continuidade e radicalidade da luta é a única maneira de honrar a sua memória.

Belo Horizonte, 16 de setembro de 2026

Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania - BH/MG