Com
a mais profunda consternação recebemos, no dia 15/09/2026, a notícia do
falecimento da companheira Maria Amélia de Almeida Teles, a nossa querida
Amelinha. Ela sempre será uma das maiores referências de combatividade,
radicalidade e coerência na luta contra a ditadura (1964 – 1985), na militância
feminista histórica e na luta permanente por memória, verdade e justiça.
Nascida
em Contagem/MG, começou sua trajetória antes da ditadura. Ainda adolescente participava
do movimento operário, ao lado do pai (Joffre de Almeida), da mãe (Lúcia Schmidt
de Almeida) e da irmã (Crimeia Schmidt de Almeida). Amelinha, o pai e a irmã
foram presos logo depois do golpe militar de 1964. As duas jovens foram soltas
em alguns dias e continuaram sua jornada.
Durante
a ditadura, Amelinha lutou na clandestinidade juntamente com seu companheiro de
toda a vida, o saudoso César Teles (1944 - 2015). Participavam do PCdoB, da
imprensa clandestina e da coordenação da logística da Guerrilha do Araguaia
(1967 - 1974) quando foram sequestrados pelo Doi-Codi/SP, em 28 de dezembro de
1972. Junto com eles, foram presos os dois filhos, Janaina e Edson, então respectivamente
com cinco e quatro anos de idade. Também Crimeia foi presa, grávida de 8 meses.
Ela é uma das únicas sobreviventes da Guerrilha do Araguaia. Teve seu filho na
prisão nas piores condições que se possa imaginar.
Toda
a família – inclusive as crianças - foi barbaramente torturada no Doi-Codi pelo
seu comandante, o carniceiro Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra. Amelinha foi
testemunha ocular da morte sob tortura do camarada Carlos Nicolau Danielli,
pelas mãos do mesmíssimo Cel. Brilhante Ustra, juntamente com os torturadores
Dirceu Gravina e Aparecido Laertes Calandra.
Depois
de sair do Doi-Codi, a companheira passou ainda pelo horror do Dops/SP, onde
ficou totalmente isolada na Cela 3 por três longos meses. Esta terrível
experiência deu origem ao belíssimo livro de Amelinha, Contos da Cela Três Memórias de uma presa política na ditadura,
publicado em 2025. Aqui em Belo Horizonte, ele foi lançado no Memorial dos
Direitos Humanos Ocupado, antiga sede do Dops/MG e Doi-Codi.
A nossa
guerrilheira, advogada, jornalista, feminista histórica e combatente de todas
as lutas, é também escritora profícua. O seu enorme legado contém obras
clássicas sobre o feminismo, a resistência contra a ditadura, a imprensa
feminista e a luta transgeracional dos familiares dos mortos e desaparecidos políticos.
Amelinha
é uma das fundadoras da Comissão dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.
É uma das autoras do Dossiê ditadura
Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil 1964 – 1985, publicado em 2009. Teve
papel crucial na luta pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita durante a ditadura
e nos seus desdobramentos contra o terrorismo de Estado e o processo de
fascistização em escalada no Brasil de hoje.
É
também uma das fundadoras da União de Mulheres de São Paulo (1981), entidade
referência para a luta feminista sempre na perspectiva da interseccionalidade
gênero, raça, classe e sexualidade. Seu projeto Promotoras Legais Populares funciona continuamente desde 1994. Amelinha
é a responsável pela inclusão da questão de gênero como um eixo, não como tema
acessório, na Comissão Nacional da Verdade (2012 - 2014) e da Comissão da Verdade
do Estado de São Paulo Rubens Paiva.
É também
uma das responsáveis pela abertura da Vala de Perus, em 4 de setembro de 1990,
no Cemitério D. Bosco no bairro de Perus, em São Paulo. Trata-se de passo
fundamental para o avanço da localização dos desaparecidos da ditadura.
Devemos
ainda à companheira Amelinha e à família Teles o único caso de condenação com
trânsito em julgado de ação declaratória em que Carlos Alberto Brilhante Ustra
é declarado torturador. Esta luta começou em 2005 e só teve o seu desfecho em
2015.
Mesmo
o expressivo epíteto brechtiano imprescindível
talvez não chegue a abarcar a grandeza desta gigante que acaba de nos
deixar. Ela é também irrepetível. Nós, do Instituto Helena Greco, tivemos o privilégio, a alegria e a honra de
poder compartilhar companheirismo, amizade, vitórias, derrotas, lutas e lutos
com ela. Não podemos deixar de mencionar a enorme alegria de viver que ela
emanava por todos os poros. Alegria de viver de quem tem consciência de estar
do lado certo da história e de ter construído o tempo todo a barricada contra
todas as formas de opressão.
A
Amelinha estará sempre presente nas nossas lutas e nos nossos corações.
Prestamos tributo aqui também aos seus familiares e companheiras/os. Um forte
abraço solidário a todes, com a certeza de que a continuidade e radicalidade da luta é a única maneira de honrar a
sua memória.
Belo Horizonte, 16 de setembro de 2026
Instituto Helena Greco de Direitos
Humanos e Cidadania - BH/MG

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