"Estamos aqui pela Humanidade!" Comuna de Paris, 1871 - "Sejamos realistas, exijamos o impossível." Maio de 68

R. Hermilo Alves, 290, Santa Tereza, CEP: 31010-070 - Belo Horizonte/MG (Ônibus: 9103, 9210 - Metrô: Estação Sta. Efigênia). Contato: institutohelenagreco@gmail.com

Reuniões abertas aos sábados, às 16H - militância desde 2003.

domingo, 5 de junho de 2016

★CENTENÁRIO HELENA GRECO★


CENTENÁRIO HELENA GRECO
Tributo aos mortos e desaparecidos políticos da ditadura (1964 – 1985).
In memoriam de Dona Helena Greco:
Centenário do nascimento (1916 - 2016) e
cinco anos da morte (15/06/1916 - 27/07/2011).

ATO PÚBLICO DE MILITÂNCIA E INTERVENÇÕES:
Sábado, dia 18 de Junho de 2016, às 16h00min.
Local: Embaixo do Viaduto Dona Helena Greco
 - Avenida do Contorno com Rua Araguari,
Barro Preto (região central) – Belo Horizonte/MG.

PROGRAMAÇÃO:
 PAINÉIS SEGUIDOS DE MICROFONE ABERTO:
*Cecília Coimbra (RJ) – Perseguida, presa e torturada durante a ditadura. É membro do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM/RJ).
*Diva Moreira (MG) - Militante histórica do movimento negro e da luta contra a ditadura. Participou do Movimento Feminino pela Anistia de Minas Gerais (MFPA/MG).
*Amelinha Teles (SP) – Perseguida, presa e torturada durante a ditadura. É membro da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, da União de Mulheres de São Paulo e das Promotoras Legais Populares.
 EXIBIÇÃO DO DOCUMENTÁRIO:
*ARQUIVOS IMPERFEITOS
- Brasil, 2006 - 10 min.
Direção: Sávio Leite. 
Sinopse:
Os que jogaram bombas jamais foram pegos, como até hoje não foram responsabilizados os que torturaram, mataram e fizeram desaparecer opositores políticos da ditadura militar. Helena Greco, em Minas Gerais se tornou o símbolo da luta pela anistia. Dava guarita a perseguidos políticos, organizava reuniões, fazia plantão em portas de delegacias e, desafiando o SNI embarcou para Roma, representando o Brasil no Congresso Mundial de Anistia. Aos 90 anos já não lembra de muitas coisas. Já não fala tanto. Ao menos já não fala com as palavras, porém seus olhos seguem dizendo.
 LANÇAMENTO DO DOCUMENTÁRIO:
*DESARQUIVANDO O BRASIL 
- Brasil, 2016 - 13 min. 
Direção: Sávio Leite - presença do diretor. 
Sinopse:
Registro de ato em homenagem às vítimas da ditadura militar (1964 – 1985) e coleta de material genético de familiares de desaparecidos políticos mineiros. Teve como objetivo formar um banco de DNA de familiares para tentar identificar os restos mortais dos desaparecidos. O ato Desarquivando o Brasil aconteceu no dia 07 de maio de 2007, em Belo Horizonte. Foi organizado pelo Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania – local onde foi realizado - em parceria com o Movimento Tortura Nunca Mais/MG. Houve a participação da Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Apesar da pressão dos familiares e dos movimentos por memória, verdade e justiça, foi nulo o resultado do banco de DNA: até hoje nenhum desaparecido político foi identificado com base nas amostras sanguíneas coletadas porque o governou sucateou e estagnou o projeto.
 APRESENTAÇÃO TEATRAL:
*Experimento 1: Mostra GUERRILHA
Solo/criação, atuação e idealização: Idylla Silmarovi. 
Direção: Raquel Castro.
Direção musical: Claudia Manzo.
Sinopse:
Substantivo feminino. Ações descontínuas de inquietação, emboscadas. A principal estratégia é a ocultação e extrema mobilidade das combatentes, chamadas de guerrilheiras. Uma mulher que fala junto à voz de outras. Reconstrução sem linha cronológica de memórias ainda empoeiradas de ontem. Se as que comandam vão no trá, Guerrilheiras da américa: uni-vos!
Comandanta Ramona, Maria Bonita, Violeta Parra, Pagu, Domitila Barrios, Olga Benário, Maria Victoria de Santa Cruz, Frida Kahlo, Dandara, e tantas outras companheiras de guerrilhas: PRESENTE!
 APRESENTAÇÃO MUSICAL:
*MPB de protesto e músicas próprias
Voz e violão: Ênio Poeta. 
 DISCOTECAGEM REVOLUCIONÁRIA: 
- DJ Guerrilha.
- DJ Confusa.
 INSTALAÇÃO: 
*URGÊNCIAS DO PRESENTE
- Alice Costa Souza. 

Realização:
Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania (IHG – BH/MG).
Parceria: 
Idylla Silmarovi e Sávio Leite.
Apoio:
Frente Independente pela Memória, Verdade e Justiça de Minas Gerais (FIMVJ/MG). 

Evento em rede social: 

SOBRE O ATO PÚBLICO CENTENÁRIO HELENA GRECO
O Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania – juntamente com parceiros e apoiadores – convida todas e todos para o Centenário Helena Greco. Este ato público terá lugar embaixo do Viaduto Dona Helena Greco. Até 2014, o viaduto tinha o nome de Castelo Branco, primeiro ditador imposto pelo golpe militar de 1964. 
Há dois anos, no dia 1º de abril de 2014 – 50 anos do golpe – foi feita a renomeação popular do viaduto, que passou a se chamar D. Helena Greco. Neste dia foi realizado o seguinte ato público: “MANIFESTAÇÃO EM REPÚDIO AO GOLPE DE 1964 – 50 ANOS! ABAIXO A DITADURA!”. Este foi convocado pela Frente Independente pela Memória, Verdade e Justiça de Minas Gerais (FIMVJ/MG), da qual o Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania participa. Foi feito tributo aos mortos e desaparecidos políticos. Foi exigida a mudança do nome do Viaduto para Dona Helena Greco. Houve intervenções com faixas, cartazes, banners e um expressivo silhuetaço. Este silhuetaço  foi realizado pelo Grupo de Pesquisas Estratégias da Arte numa Era de Catástrofes da EBA/UFMG. As pistas do viaduto foram ocupadas. Houve falas de militantes, ex-presos políticos e familiares de mortos e desaparecidos. Estiveram presentes entidades, movimentos, trabalhadores(as) e estudantes. Criméia Schmidt de Almeida - presa durante a ditadura, familiar de desaparecido e ex-guerrilheira do Araguaia - veio de São Paulo e participou da manifestação. Depois de muita pressão, o nome Viaduto Dona Helena Greco foi oficializado no dia 02/05/2014. Até hoje, no entanto, ele não foi identificado com a instalação de placas indicando o seu nome.
Os objetivos do ato público Centenário Helena Greco - que acontecerá no dia 18 de junho de 2016 - são:
• prestar homenagem aos mortos e desaparecidos políticos da ditadura e a todas as vítimas do aparato repressivo nos dias de hoje;
• resgatar a memória da luta contra a ditadura, a luta pelos direitos humanos e a trajetória de Helena Greco;
• debater e repudiar o terrorismo de Estado e do capital;
• garantir a identificação do Viaduto, já que não existe no local e no entorno nenhuma visualização física do seu nome;
• propor a consolidação do viaduto como lugar de memória para que todas e todos – movimentos, entidades, indivíduos e militância – façam intervenções/ocupações permanentes neste espaço.
Assim, neste ato público reafirmaremos nossas lutas:
- Em defesa dos Direitos Humanos e luta contra o terrorismo de Estado e do capital/ luta contra o terrorismo institucional.
- Pela luta anticapitalista, abaixo o neoliberalismo!
- Abaixo a fascistização das instituições e de setores da sociedade! 
- Pelo direito à História, à Memória, à Verdade e à Justiça! Punição para os responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos durante a ditadura militar e para aqueles que cometem estes mesmos crimes contra a humanidade nos dias de hoje! 
- Pela abertura irrestrita dos arquivos da repressão! 
- Pelo fim de todo o aparato repressivo! Não acabou, tem que acabar: eu quero fim da polícia militar!
- Pelo fim das torturas, execuções e desaparecimentos forçados!
- Pelo fim do genocídio do Povo Negro! Pelo fim do genocídio dos Povos Indígenas! 
- Pela demarcação de todos os territórios indígenas e quilombolas!
- Abaixo o racismo, o estereotipismo, o eugenismo e a gerontofobia!
-Pelo fim da criminalização dos pobres!
- Pelo fim do extermínio de jovens e moradorxs de periferias, vilas, morros, favelas e ocupações! 
- Pelo fim das chacinas no campo cometidas pelo latifúndio e o agronegócio! Abaixo o terrorismo do latifúndio! Terra para quem vive e trabalha!
- Pelo fim do extermínio e da violência contra as mulheres! Abaixo o feminicídio, a misoginia, o machismo e o sexismo! Pela erradicação da cultura do estupro!
- Pela legalização do aborto: direito ao aborto seguro e gratuito já! 
- Abaixo a homofobia, a lesbofobia, a transfobia, os assassinatos e a violência contra a comunidade LGBTs!
- Não a redução da maioridade penal!
- Abaixo a política de encarceramento em massa! Por uma sociedade sem prisões e sem manicômios!
- Todo apoio às ocupações dxs estudantes secundaristas! Todo apoio às greves dxs professorxs!
- Pela liberdade de protesto, manifestação e expressão. Pelo fim da criminalização da luta dos Trabalhadorxs do campo, da cidade e do movimento popular! Abaixo a lei antiterrorismo!
- Pelo fim dos processos e pelo trancamento de todas as ações penais contra manifestantes! Pela libertação imediata dxs presxs políticxs! 
- Viva a luta independente da classe trabalhadora e do movimento popular!

SOBRE HELENA GRECO (15/06/1916 – 27/07/2011)
Pequena biografia
A nossa cidadania depende diretamente da nossa capacidade de indignação. Esta, 
por sua vez, só se concretiza a partir do exercício permanente da perplexidade. 
Helena Greco
Helena Greco nasceu em Abaeté, cidade do oeste de Minas, a 15 de junho de 1916, de pai italiano (Antônio Greco) e mãe mineira (Josefina Álvares Greco). Sua primeira transgressão foi a leitura dos clássicos quando ainda vigorava o index librorum proibitorum. Adquiriu formação humanista e se manteve agnóstica em pleno internato dominicano, em Belo Horizonte. Adorava recitar Augusto dos Anjos, um dos seus poetas preferidos. Este gosto pela poesia e pelos clássicos ela carregou a vida inteira, juntamente com uma cinefilia exacerbada. Talvez estas tenham sido fontes onde ela hauriu para depois desenvolver a peculiar capacidade de indignação, sua característica mais marcante.
Era farmacêutica de formação, militava no seu sindicato. No Conselho Regional de Farmácia há uma sala com o seu nome. Foi casada durante 64 anos com o saudoso Dr. José Bartolomeu Greco (falecido a 6 de janeiro de 2002), seu companheiro da vida inteira. Teve três filhos, três netos e dois bisnetos – o mais novo não chegou a conhecer.
Começou a militar aos 61 anos de idade, em 1977, e não parou mais. Sua participação nos movimentos sociais - reconhecida nacional e internacionalmente - tem como marco a luta pela Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita, da qual ela se tornou praticamente sinônimo. Foi presidente e uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia de Minas Gerais (MFPA/MG - 1977) e vice-presidente do Comitê Brasileiro de Anistia de Minas Gerais (CBA/MG - 1978). Ajudou a construir e foi membro do Comitê Executivo Nacional/CEN destas entidades. Foi a representante do Brasil – eleita por aclamação - na Conferência Internacional pela Anistia no Brasil em Roma, em junho-julho/1979.
Todos a chamavam de D. Helena. Ela imprimiu a sua atitude de radicalidade e politização em toda a sua história de militância, sempre a partir da combinação luta contra a ditadura militar/ luta feminista. Eram notáveis sua capacidade de indignação e adesão permanente às causas da classe trabalhadora e do movimento popular.
Tornou-se inimiga pública da ditadura, dos militares, das polícias, dos grupos de extermínio, dos grupos parapoliciais e paramilitares e do aparato midiático. Seu foco principal era a luta pelo desmantelamento do aparato repressivo – portanto, pela erradicação da tortura e pela punição dos torturadores. Durante a ditadura, sua casa e a sede do MFPA e do CBA foram alvos de atentados a bomba do Comando da Caça aos Comunistas (CCC), do Grupo Anticomunista (GAC) e do Movimento Anticomunista (MAC). Teve o telefone grampeado, a vida monitorada, a correspondência violada. Recebia constantes ameaças e provocações do aparato repressivo e dos grupos de extrema direita.
No final da década de 1970, em plena ditadura, ela retomou, em Belo Horizonte, as manifestações públicas do Dia Internacional da Mulher (8 de março). Tal retomada se deu na perspectiva da luta pela superação da discriminação, do preconceito, da violência, da brutal desigualdade de gênero – sistêmica nesta sociedade tão arraigadamente patriarcal e machista, tão exploradora e opressora. A partir de 1978, firmou a realização anual de manifestações no Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 dezembro) no bojo da luta contra a ditadura militar.
Sua luta contra a ditadura se desdobrou na luta contra todas as formas de opressão cujo lado afirmativo é a construção do binômio Direitos Humanos e Cidadania. Entendia esta como uma luta contra hegemônica para a construção de uma nova sociedade, sem exploradores e explorados – a sociedade socialista. Além de sua militância feminista, apoiou ativamente o movimento negro, a luta dos povos indígenas, participou da luta antiprisional, da luta antimanicomial, do movimento LGBTs, do movimento dos sem terra e sem teto, do movimento de população de rua, do movimento das vilas e favelas, das ocupações, das lutas dos estudantes e dos trabalhadores, do movimento das rádios e TVs comunitárias e da defesa do povo palestino. 
Por causa deste repertório de lutas, D. Helena se elegeu duas vezes para a Câmara Municipal de Belo Horizonte pelo Partido dos Trabalhadores, do qual foi uma das fundadoras. Foi vereadora de 1983 a 1992. Mesmo no espaço instituído, ela sempre atuou na perspectiva do instituinte, da amplificação da política. Sua militância partidária se deu no marco – hoje drasticamente aniquilado - de um partido independente, classista e socialista: sem pelego e sem patrão, como se propunha à época da sua fundação. D. Helena criticou e combateu sistematicamente o burocratismo, o centralismo, o autoritarismo, o gabinetismo e o peleguismo da tendência majoritária. Tais desvios, que hoje prosperam sem limites no PT, então já começavam a despontar.
No espaço eminentemente reacionário da Câmara Municipal, ela conseguiu, em 1983, fazer aprovar a Comissão Permanente de Direitos Humanos – a primeira do Brasil - cujo programa político se bifurcava na luta contra a repressão, a opressão, a exploração dos trabalhadores e do povo e na luta contra a discriminação e desigualdade de gênero. Tudo isto ainda durante a ditadura militar. Efetivou, em conjunto com o vereador Artur Vianna, a mudança do nome da Rua Dan Mitrione para Rua José Carlos da Matta Machado, no Bairro das Indústrias. Dan Mitrione era um agente da CIA que morou em Belo Horizonte, tendo vindo ao Brasil para dar aulas de tortura aos agentes da ditadura. José Carlos da Matta Machado era estudante de direito da UFMG. Militou no movimento estudantil e na Ação Popular Marxista Leninista/APML. Foi assassinado sob tortura, em 28 de outubro de 1973. 
Foi também D. Helena que idealizou, em 1993, o primeiro órgão na esfera do poder executivo, no Brasil, voltado exclusivamente para a questão dos direitos humanos - a Coordenadoria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de Belo Horizonte (CDHC) - da qual foi coordenadora até 1996. Estabeleceu como prática a articulação com as comunidades, os trabalhadores e o movimento popular. Na CDHC, ela efetivou a Comissão Paritária de Mulheres (10/dezembro/1993), que deu origem ao Conselho Municipal da Mulher, garantindo o protagonismo dos movimentos feministas da cidade nesta instância. Trouxe uma delegação das Mães da Praça de Maio (Argentina) pela primeira vez a Belo Horizonte. A Coordenadoria de Direitos Humanos e Cidadania se tornou referência para várias outras, criadas Brasil adentro e afora. 
Para D. Helena, no entanto, o espaço prioritário de atuação sempre foi o chão da cidade não a estreiteza do espaço institucional. Ao encerrar seu mandato na CDHC, em 1996, ela atuou exclusivamente neste lugar que é o espaço por excelência da luta de classes e da democracia direta.
Foi uma das fundadoras do Movimento Tortura Nunca Mais/MG, em 1985. Em 1987, no bojo da luta pelo reatamento das relações diplomáticas Brasil-Cuba, foi uma das fundadoras da Associação Cultural José Marti de Minas Gerais e sua primeira presidente. Foi ela que assinou, em Cuba, o convênio com o Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP). 
Sob a sua coordenação, em fevereiro de 1991, o Movimento Tortura Nunca Mais/MG encaminhou ao Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG) lista de 12 médicos legistas que atuaram no estado de 1964 a 1979. Esta lista é resultado de denúncia de presos políticos cujos processos tramitaram no Superior Tribunal Militar (STM) e está contida no Projeto Brasil Nunca Mais (Arquidiocese de São Paulo, 1985). Trata-se de médicos que assinaram laudos de militantes assassinados nos cárceres após violentas torturas. O objetivo do Movimento Tortura Nunca Mais/MG era a abertura de sindicância para averiguação da responsabilidade destes profissionais na assinatura de laudos falsos e o seu comprometimento com a repressão e a tortura durante a ditadura militar. A iniciativa do Tortura Nunca Mais/MG estava inserida em processo de âmbito nacional desencadeado pela descoberta das ossadas de desaparecidos políticos na vala clandestina do cemitério D. Bosco (Perus/SP), em 1991. Processos semelhantes foram movidos em São Paulo e no Rio de Janeiro sob a responsabilidade da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ. No Rio e em São Paulo, os processos tiveram certo resultado: alguns médicos-torturadores chegaram a perder o registro profissional. Em Minas Gerais, ao contrário, fazendo jus ao reacionarismo e corporativismo que lhe são peculiares, o CRM-MG engavetou o processo. Na sequência, duas das médicas citadas entraram com duas ações criminais contra D. Helena, que foi parar no banco dos réus. Absolvida em primeira instância, foi condenada no Superior Tribunal de Justiça (STJ), por calúnia e difamação, a um ano, em regime aberto – o que causou enorme comoção local e nacional. Este episódio evidencia a drástica inversão de valores no país da barbárie institucional.
Também em 1991, ela denunciou a chamada Operação Arrastão. Trata-se de ação conjunta das polícias civil e militar do governo Hélio Garcia (PRS): no dia 22 de agosto de 1991, mais de 500 crianças e adolescentes com trajetória de rua foram caçadas, espancadas e presas. Belo horizonte foi transformada em praça de guerra - o Estatuto da Criança e do Adolescente mal tinha completado um ano.
Em 1995, D. Helena participou da construção e foi uma das coordenadoras do Fórum Permanente de Luta pelos Direitos Humanos de Belo Horizonte (Movimento popular, sindical e de Direitos Humanos), o qual articulava cerca de 30 movimentos sociais. Ainda em maio de 1995 recebeu a medalha Chico Mendes de Resistência oferecida pelo Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, a qual era motivo do maior orgulho e da maior alegria para ela. Participou como jurada do Tribunal Nacional Contra o Trabalho Infantil (Brasília, 11/outubro/1995), sessão preparatória do Tribunal Internacional Independente Contra o Trabalho Infantil no México (março/1996). Em 1996, ela ajudou a construir e participou da Associação de Apoio e Defesa às Vítimas da Violência Policial (AADVIP). 
D. Helena repudiou com veemência as chacinas periódicas da década de 1990. Atuou diretamente na denúncia da Chacina do Taquaril (15/março/1996), na qual foram assassinados, com requintes de crueldade, Gilmar Ferreira de França (14 anos), Jamil Martins Romão (15 anos) e Júnior Sandro Marques Morais (16 anos) na região central de Belo Horizonte. Os três garotos moravam no Taquaril, bairro pobre da zona leste da cidade. Eles foram trucidados por um grupo de extermínio composto por policiais civis autodenominado Grupo Reação. O caso não foi solucionado. 
No dia 17 de junho de 1996, por iniciativa de D. Helena, a Coordenadoria de Direitos Humanos e Cidadania e o Fórum Permanente de Luta pelos Direitos Humanos de Belo Horizonte realizaram, na Praça Afonso Arinos, o Tribunal Popular: as chacinas em julgamento. Seu objeto é constituído pelas 8 chacinas da década de 1990: Acari/Rio de Janeiro (julho/1990), Carandiru/São Paulo (outubro/1992), Candelária/Rio de Janeiro (julho/1993), Vigário Geral/Rio de Janeiro (agosto/1993), Ianomami/Roraima (agosto/1993), Corumbiara/Rondônia (agosto/1995), Taquaril/Minas Gerais (março/1996), Eldorado de Carajás/Pará (abril/1996). Participaram como testemunhas sobreviventes e familiares das vítimas das chacinas. Neste Juri Popular o Estado brasileiro foi condenado em praça pública, por unanimidade. Mais de 600 pessoas estiveram presentes. A seguir, um trecho expressivo do panfleto de convocação:
“(...) A periodicidade assustadoramente regular das chacinas qualifica o Brasil como o país da carnificina. O que está na base desse quadro é a cultura do extermínio e da impunidade. Todos sabemos que o grande responsável pela violência no campo é o latifúndio. Os governos estaduais e o governo federal são os grandes cúmplices. A violência policial é a projeção direta da violência do Estado. Não dá mais para viver com ela. (...)”.
Ao longo de toda a sua trajetória, D. Helena aprofundou a luta contra a violência policial e institucional e pelo direito à memória, à verdade e à justiça. Para ela, como o contencioso da ditadura não havia sido sequer equacionado, os pontos programáticos da luta pela Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita continuavam valendo: a erradicação da tortura; o esclarecimento circunstanciado dos crimes da ditadura militar; a localização dos restos mortais dos desaparecidos políticos; a nomeação, responsabilização e punição dos torturadores e assassinos de presos políticos, bem como daqueles que perpetram os mesmos crimes contra a humanidade na atualidade; o desmantelamento do aparato repressivo. D. Helena Greco tornou-se referência de luta contra a tortura - que continua a ser uma das instituições mais sólidas no Brasil -, contra a opressão das mulheres, contra a criminalização dos pobres e dos movimentos sociais, contra o encarceramento em massa, contra o genocídio do povo negro e das populações indígenas.
A partir de 2002, D. Helena passa a ressentir o peso dos seus 86 anos e se retira da militância cotidiana. Digamos que aí começa o repouso da guerreira. Seu legado, no entanto, estava muito forte, muito recente, muito presente. Em 2003, um grupo de companheiras e companheiros que lutaram com ela ombro a ombro nesta difícil frente da luta pelos direitos humanos – muitos deles no Movimento Tortura Nunca Mais/MG – tomaram a iniciativa de construir o Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania (IHG – BH/MG). Este se reunia – em 2003 e 2004 – na Casa do Jornalista de Minas Gerais. A partir de 2005, o Instituto Helena Greco passa a ter sede própria no bairro de Santa Tereza em Belo Horizonte (Rua Hermilo Alves, 290). Trata-se de espaço e movimento social apartidário. É autogestionário, autônomo e independente com relação ao Estado, aos governos, às empresas, aos editais, aos gabinetes e à institucionalidade. O espaço e o movimento contam com a militância de membros, apoiadores e visitantes. Sua militância se dá na luta por memória, verdade e justiça – contra o contencioso da ditadura militar – e na luta contra o terrorismo de Estado e do capital. Trata-se, portanto, da continuidade e aprofundamento da luta de D. Helena Greco e do Movimento Tortura Nunca Mais/MG.
D. Helena faleceu em 27 de julho de 2011, aos 95 anos de idade. Seu enterro tornou-se um grande ato público repleto de movimentos sociais. Vários companheiros e companheiras levantaram a proposta de mudar o nome do então Viaduto Castelo Branco – que fica na região central de Belo Horizonte - para Viaduto Dona Helena Greco. Houve outro ato público em sua homenagem na Igreja São José (02/agosto/2011), local escolhido pelos familiares porque suas escadarias foram o palco de manifestações contra a ditadura. 
A casa de D. Helena Greco (Barro Preto, Belo Horizonte) tornou-se um lugar de memória da luta contra a ditadura. Além de ter sido alvo de atentados do aparato repressivo, como já foi dito, era também local de reuniões do movimento pela anistia e de acolhimento de perseguidos políticos. Além disso, D. Helena abria a sua casa todos os domingos para servir sua macarronada especial. Estes almoços se tornaram espaço para encontros e reuniões políticas. Depois da morte de D. Helena, o Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania – com o apoio de entidades – realizou, na Semana Internacional dos Direitos Humanos, o ato público Casa de D. Helena Greco: espaço de resistência (17/dezembro/2011). Em tributo aos mortos e desaparecidos políticos e à D. Helena Greco, houve uma jornada de militância: debates sobre direito à História, à Memória, à Verdade e à Justiça e sobre ocupações e lutas urbanas; exibição de documentário; performances, recitais de poesia, concerto com músicas eruditas e canções revolucionárias, bandas underground e manifestações de movimentos sociais. Foi servida a famosa macarronada da D. Helena. Na fachada da casa, foi instalada placa com os dizeres: 
Casa de Dona Helena Greco:
Espaço de Resistência
Helena Greco (1916/2011) lutou contra 
a ditadura militar e contra todas as formas 
de autoritarismo, exploração e opressão.
A proposta de mudança do nome do Viaduto Castelo Branco para D. Helena Greco prosperou. No dia 1º de abril de 2014 – 50 anos do golpe militar -, em ato da Frente Independente pela Memória, Verdade e Justiça de Minas Gerais, foi feita a renomeação popular através de um ato público no viaduto: “Manifestação em repúdio ao golpe de 1964 – 50 anos! abaixo a ditadura!”. Centenas de manifestantes – familiares de mortos e desaparecidos, presos políticos durante a ditadura, trabalhadores, estudantes, movimentos sociais – exigiram a mudança do nome, protestaram e prestaram homenagens aos mortos e desaparecidos políticos. Houve a ocupação das pistas do viaduto. O viaduto passou a se chamar D. Helena Greco. Após este ato público e sob muita pressão a nomeação foi oficializada no dia 02 de maio de 2014.
Desde o seu falecimento, D. Helena Greco tem sido lembrada e homenageada das mais diversas formas como referência de combatividade, radicalidade e capacidade de indignação. Na última entrevista que deu, aos 90 anos (2006), na gravação do documentário Arquivos imperfeitos, de Sávio Leite, ao ser perguntada como se caracterizaria politicamente, ela não titubeou: “Sou feminista radical, socialista, de extrema esquerda”. A última aparição pública de D. Helena – já com dificuldade de locomoção - foi no dia 7 de maio de 2007, no ato Desarquivando o Brasil – homenagem às vítimas da ditadura militar e coleta de material genético de familiares de desaparecidos políticos. O ato foi convocado pelo Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania e o Movimento Tortura Nunca Mais/MG. 
Dona Helena Greco vive, hoje e sempre, em todas as nossas lutas. É a nossa referência de defesa dos direitos humanos.
Companheira Helena Greco: presente!
Belo Horizonte, junho de 2016 – Centenário Helena Greco 

Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania

terça-feira, 24 de maio de 2016

REALIZADO O VIIº MAIO DE RESISTÊNCIA - NOTÍCIA DO INSTITUTO HELENA GRECO DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA


NOTÍCIA SOBRE O VIIº MAIO DE RESISTÊNCIA!

Foi realizada, na segunda-feira, dia 23 de maio de 2016, a 7ª edição do Maio de Resistência. Esta é  uma das atividades periódicas de formação e militância organizadas pelo Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania para membros, apoiadores, militantes em geral e interessados. O Maio de Resistência conta com a presença de categorias, movimentos classistas e populares.

Nesta edição houve a participação de Cleide Donária – trabalhadora da saúde de Belo Horizonte, servidora pública e sindicalista; Prof. Túlio Lopes – membro do Comando de Greve dos Professores da UEMG; Nilo Hallack, da Comissão Nacional das Ligas dos Camponeses Pobres e José Pereira Gonçalves, da Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental. O irmão de José Pereira Gonçalves, Renato Nathan, foi assassinado em Jacinópolis (Buritis/Rondônia) por policiais militares e pistoleiros a mando de latifundiários, em abril de 2012.

Cleide Donária denunciou o processo de desmonte e aniquilação da rede púbica de saúde perpetrado em Belo Horizonte pela prefeitura de Márcio Lacerda (PSB/PSDB). Denunciou também o programa em curso de precarização e demissão em massa, que já atingiu mais de 3 500 trabalhadores(as) da saúde, com ênfase nos contratados e terceirizados.  Destacou a importância da mobilização permanente dos(as) trabalhadores(as) da saúde para reverter este processo e garantir o direito universal à saúde pública gratuita e de qualidade.

Túlio Lopes traçou um painel do processo de precarização sofrido pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) desde sua criação, em 1989.  Este processo se agravou a partir de 2013, quando se deu o aprofundamento das investidas rumo à privatização da universidade.  O governo Fernando Pimentel (PT/PMDB) mantém esta política cujo desfecho pode resultar na destruição da UEMG.  Professores(as) da UEMG e da UNIMONTES estão em greve para impedir esta destruição e garantir uma universidade pública de qualidade, democrática e socialmente referenciada. Foram também denunciados os baixíssimos salários. Professores(as) da UEMG de Frutal/MG estão em greve e estudantes ocuparam universidade em apoio.

Nilo e José Pereira denunciaram as permanentes e sistêmicas perseguições, ameaças e assassinatos de trabalhadores(as) do campo e suas lideranças praticados em Rondônia pelo latifúndioEste é representado sobretudo por Carlos Faitaroni e sua Associação de Pecuaristas do Vale do Jamari – feroz grupo de extermínio; pelo governador do Estado, Confúcio Moura (PMDB); e pela Polícia Militar, comandada pelo Cel. Ênedy Dias. Destacou-se que o governo Dilma Rousseff (PT/PCdoB/PMDB e outros) manteve a política de concentração de terras, de favorecimento incondicional ao agronegócio, de violência e extermínio sistemático de trabalhadores(as) do campo, de comunidades indígenas e quilombolas. Jamais houve qualquer política de reforma agrária. Esta situação se agrava com o governo interino de Michel Temer (PMDB/PSDB/PP e outros) que empodera definitivamente setores abertamente fascistas como a bancada do agronegócio.  O terrorismo, o extermínio de trabalhadores(as) do campo e genocídio de comunidades indígenas e quilombolas, a guerra generalizada contra os pobres se consolidam cada vez mais como método de governo e política de Estado. Por outro lado, a luta independente dos trabalhadores(as) do campo radicaliza e se intensifica – é esta a única maneira de destruir o latifúndio e garantir a terra para quem nela vive e trabalha.

         Estiveram presentes nesta edição estudantes, trabalhadores(as) de várias categorias e militantes de entidades e movimentos sociais. Houve também a participação de estudantes do curso Interdisciplinar Saúde  e do curso de Artes da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

         O VIIº Maio de Resistência foi organizado pelo Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania com o apoio do Coletivo Estopim de Porto Seguro/Bahia.

Todo apoio aos trabalhadores(as) da saúde!

Todo apoio aos trabalhadores(as) da educação da UEMG!

Todo apoio às ocupações dos(as) estudantes!

Viva a luta dos(as) trabalhadores(as) do campo!

Abaixo terrorismo de Estado e do capital!

Belo Horizonte, 24 de maio de 2016
Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania (IHG-BH/MG).



terça-feira, 17 de maio de 2016

7º MAIO DE RESISTÊNCIA!


VIIº MAIO  DE  RESISTÊNCIA!

Segunda-feira, dia 23 de maio de 2016, às 18h30min.
Local: Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania
- Rua Hermilo Alves, 290, Bairro Santa Tereza - Belo Horizonte/MG

Nesta edição: 

- Luta dos(as) trabalhadores(as) da saúde de BH.
- Perseguições e assassinatos de trabalhadores(as) do campo. 
- Greve dos(as) professores(as) da UEMG.
- Luta dos(as) cobradores(as) de ônibus de BH.

Painéis seguidos de roda de conversa:

- Cleide Donária: trabalhadora da saúde de BH
- Nilo Hallack: Comissão Nacional das Ligas dos Camponeses Pobres
- Prof. Túlio Lopes: membro do Comando de Greve dos Professores da UEMG
- Torão e Luis Fernando: Movimento Sem Cobrador Não Dá! 

Organização: Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania (IHG - BH/MG)
Apoio: Coletivo Estopim - Porto Seguro/Bahia

MAIO DE RESISTÊNCIA - A luta da classe trabalhadora 
contra a opressão e a exploração capitalistas:

É uma das atividades periódicas de formação realizadas pelo Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania para membros, apoiadores, militantes em geral e interessados. Estas contam com a presença de categorias, dos movimentos classistas e populares.

MAIO: MÊS DA AUTO-ORGANIZAÇÃO, DA LUTA 
E RESISTÊNCIA DA CLASSE TRABALHADORA!

segunda-feira, 9 de maio de 2016

NOTA DO COLETIVO ESTOPIM SOBRE O GENOCÍDIO INDÍGENA E LUTA CONTRA OPRESSÃO

Foto/Fonte: https://ocoletivoestopim.wordpress.com/2016/05/08/nota-sobre-a-aula-publica-o-genocidio-indigena-e-a-luta-contra-a-opressao/

Nota sobre a Aula Pública: O Genocídio Indígena e a Luta Contra a Opressão

Na última quarta feira, dia 27/04, foi realizada a Aula Pública denominada “Genocídio Indígena e a Luta contra a Opressão” no Campus Sosígenes Costa/ UFSB, Porto Seguro BA. O evento foi promovido pelo Coletivo Estopim com apoio do Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania e do Fórum Sobre Violações de Direitos dos Povos Indígenas.
A Aula Pública contou com a presença de Dona Maura Rosa Titiá, Vânia Pataxó e Nitynawa. As três convidadas foram de grande importância para o evento, por trazerem relatos de suas lutas como indígenas, mulheres e mães. O ponto chave da mesa de debates foi o caráter de resistência e combatividade que estas três convidadas trouxeram, com suas histórias de perda e muita luta. Apesar da dificuldade da pauta, todas as convidadas valorizaram a iniciativa para tratar de um tema que é historicamente jogado ao esquecimento. A reivindicação à memória é uma luta que perpassa os diversos movimentos sociais, em um país em que possui o esquecimento generalizado e a apagamento da história como prática institucional.
No ano de 1997, Dona Maura e um grupo de lideranças indígenas foi a Brasília para reivindicar a retomada de suas terras e denunciar os conflitos com os fazendeiros e pistoleiros locais. Nesta ocasião, um dos membros do grupo, Galdino Jesus do Santos, foi brutalmente assassinado por cinco jovens de classe alta, que atearam fogo em seu corpo enquanto ele dormia. O caso de Galdino se tornou símbolo nacional da luta contra o genocídio indígena. Dona Maura levou à mesa de debates um pouco do que foi fazer parte de um momento de tamanha comoção, indignação e revolta. Como diversas outras histórias que continuam a se repetir, por terem dinheiro e poder, os criminosos permanecem sem nenhuma punição significativa.
Outra história de impunidade e revolta foi trazida por Vânia Pataxó, mãe de Samuel Pataxó, jovem artesão assassinado em Betim/MG, no ano de 2014 por policiais municipais que até os dias de hoje não foram punidos. O relato de Vânia foi repleto de dor, por falar da perda de um filho que foi espancado até a morte. A negligência por parte do Estado, que até hoje se recusa a dar o devido encaminhamento ao caso, perpetua uma política de exclusão, esquecimento e institucionalização do genocídio indígena.
A terceira integrante da mesa foi Nitynawã, liderança da Aldeia da Reserva da Jaqueira, localizada nas proximidades de Porto Seguro BA. Nitynawa, Jandaya e Nayara estavam à frente da retomada de suas terras e continuam sendo importantes lideranças do Povo Pataxó. O relato de Nitynawã remontou o massacre de 51, que abalou profundamente a comunidade Pataxó de Barra Velha. Além deste relato, Nitynawã discorreu acerca da delicada situação em que se encontram os povos indígenas, ameaçados de perder suas terras além de serem frequentemente alvo de pistoleiros e agentes do aparato repressivo do estado.
A situação dos povos indígenas no extremo sul da Bahia não é nada otimista. Em vista dos últimos acontecimentos, os direitos dos povos indígenas continuam sendo sistematicamente ameaçados e perseguidos. O brutal ataque à Aldeia Cahy em meados de janeiro, na Terra Indígena Comexatibá (Cahy-Pequi), executado pela Polícia Militar, do Estado da Bahia (Rui Costa/PT) e pela Polícia Federal (Dilma Roussef/PT), resultou na demolição de 75 casas, além de escolas e postos de saúde. Essa ação truculenta fazia parte de um conjunto de onze mandatos de reintegração de posse que estavam sendo cumpridos na área. Para além deste território, a grande maioria dos povos indígenas da Bahia continua sofrendo graves ataques e constantes ameaças de expulsão.
Mais um atentado cometido contra a aldeia de Cahy foi a um transporte escolar indígena, queimado e alvo de tiros por parte de agentes do agronegócio e da rede hoteleira, os principais perseguidores dos indígenas na região. Como se as afrontas por parte do Estado já não fossem graves o bastante, os fazendeiros e pistoleiros continuam perpetuando a prática do genocídio dos povos indígenas, iniciada há quinhentos anos, viva ate hoje.
O cenário de ameaça institucional aos direitos indígenas se estende à esfera federal. APEC 215/2000 põe em jogo as conquistas da constituição de 1988, ao delegar a demarcação das terras para a bancada ruralista e as empreiteiras e mineradoras interessadas nas áreas em questão. O projeto de emenda constitucional é uma enorme afronta aos direitos indígenas, pois é uma forma de reforçar e institucionalizar totalmente as diversas violações que já são recorrentes.
A tramitação desse projeto de lei é especialmente preocupante num contexto político que possui o congresso mais conservador desde 1964. As falas de apoio ao impeachment reforçaram o caráter fascista que ronda o espectro político nacional, com pronunciamentos saudosistas à ditadura e a homenagem ao Brilhante Ustra. A ascensão da direita sob o viés do impeachment, pode representar percas ainda maiores para os direitos indígenas, mesmo que, sob o governo desenvolvimentista do PT, os povos indígenas enfrentam o período com menos demarcações de terra desde 1988.
O Coletivo Estopim manifesta o seu mais veemente repúdio a essa atual situação dos povos indígenas!
A institucionalização do genocídio, da criminalização dos movimento sociais, da prática do extermínio, da perseguição, da tortura, do desaparecimento de corpos e do esquecimento se mantêm vigente desde o período militar. Acreditamos que os movimentos sociais independentes da institucionalidade com o apoio mútuo dos segmentos marginalizados da sociedade conseguirão reverter esse quadro.
Viva Luta dos Povos Indígenas!
Pelo fim do genocídio dos Povos Indígenas!
Abaixo a PEC 215!
Pela demarcação de todas as terras Indígenas!
Abaixo ao aparato repressivo!
Abaixo ao Fascismo!
Pelo fim da criminalização dos movimentos sociais!
Viva a luta independente!
Coletivo Estopim 4 de maio de 2016
Porto Seguro-BA